Domingos
E um bolo de chocolate
Quando nós chegamos por aqui, a lógica cartesiana de divisão do tempo já estava bem estabelecida: sete porções de dias pré-destinados ao trabalho, à festa, ao descanso, à loucura, tudo bem delimitado para seguirmos o calendário à risca. Não importa se foram os babilônicos, os romanos ou os cristãos que fizeram a classificação. O corpo já entendeu que as segundas são para os recomeços, as terças para as idas ao sacolão e as sextas, reservadas para o excesso das pizzas de quatro queijos com borda de catupiry perto da pracinha. Os sábados podem vir com ressacas e pequenas doses de obrigações, mas é nos domingos que nasce a mistura perfeita de preguiça, calma e liberdade.
Domingo combina com um sossego inerente, que só é interrompido pelo som dos passarinhos de manhã, a viola da vinheta de abertura do Globo Rural, o telefonema de uma amiga perguntando quais os planos pro dia ou a buzina do ciclista agradecendo a gentileza de poder atravessar a ciclovia: não há pressa alguma para chegar ao supermercado que fica a muitas quadras de casa e o caminho de ida acaba se tornando um passeio gostoso, com o único objetivo de comprar um ingrediente dispensável para uma receita nova. Faz bem para as pernas e para o paladar: o maior compromisso é pensar no assado do almoço.
É nessas vinte e quatro horas que nós, que sonhamos tanto com o descanso mas acordamos em um mundo em que ainda precisamos enfrentar escalas trabalhistas da era industrial, podemos nos dar o luxo de preencher a cozinha com a família, preparar uma carne de panela para a semana, fazer salpicão, colocar um picles para curtir e até dançar enquanto as panelas seguem seus tempos no fogo, marinadas e assadas lentamente ao som de coletâneas de reggae ou de horas de samba no programa da rádio.
Aceitamos a existência dos dias, mas abolimos o uso de relógios: longe dos pontos batidos e dos compromissos que ocupam os tais dias úteis, o almoço pode se estender por três ou quatro horas, sem cobranças sobre quando a salada de batatas com maionese sai do cativeiro da geladeira e encontra a mesa posta. Não tem nada mais útil do que bebericar um gole de cerveja e atrasar um pouco a fome com um tira-gosto. Faz parte da negociação do domingo e a espera costuma valer a pena. A tarde segue com os dedos melados de sobremesas improvisadas com compotas e doces ao nosso alcance, esperando por combinações improváveis, tipo doce de umbu com queijo Minas. A barriga cheia e satisfeita agradece, e o sono chama.
Lá pelas tantas, quando acordamos das siestas e terminamos de ver um filme com meio olho aberto e outro fechado, a luz começa a mudar e a casa fica mais silenciosa. Os postes acendem, surge aquela sensação meio morna de fim de tarde, como se o domingo estivesse dobrando a esquina devagar. Mas é domingo e ainda dá tempo de assar um bolo e passar mais um café antes do Fantástico começar.
Tem receitas que são a cara de alguns dias da semana ou simbolizam uma relação: esse bolo de chocolate é assim, um marco da amizade das autoras desta edição, escrita a quatro mãos, como essa receita já foi feita várias vezes. Começou como um lanche despretensioso em casa, feito com poucos ingredientes, e logo virou sinônimo (ao lado de infinitas focaccias) de passar um tempo junto na cozinha, conversando amenidades e atrocidades, enquanto uma mistura bem os ingredientes e a outra fala demais.
Ingredientes para o bolo de chocolate
3 xícaras de farinha de trigo
2 xícaras de açúcar cristal (também funciona com demerara, fica ótimo)
1/2 xícara de cacau em pó 100% (pode usar um 50%, se preferir menos amargo)
1 pitada de sal
2/3 xícara de óleo de girassol
2 colheres de chá de extrato de cumaru ou baunilha (opcional)
2 xícaras de água
2 colheres de chá de vinagre
2 colheres de chá de bicarbonato
Modo de fazer
Pré-aqueça o forno a 180ºC por 10 minutos.
Cubra uma fôrma de bolo com papel manteiga e reserve.
Numa bacia, misture bem os ingredientes secos (com exceção do bicarbonato).
Depois, acrescente os líquidos (com exceção do vinagre) e misture novamente, até a massa ficar bem homogênea. Ela fica bem pesada e grossa, não se assuste!
Agora sim, acrescente o bicarbonato e o vinagre, e mexa delicadamente.
Despeje a massa na fôrma.
Leve ao forno por 40 minutos ou até enfiar um garfo e ele sair bem limpo.
É fundamental esperar esfriar para desenformar.
Essa edição foi escrita a quatro mãos com Carol Dini, autora da newsletter Jornalzinho.






♥️♥️♥️ domingos com você
Dá vontade de assar um bolo e cancelar a segunda-feira. <3